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Boa notícia: marqueteiros decidem não fazer marquetagem, informa Mario Rosa

 In Na Mídia

De tanto criarem e projetarem imagens alheias, os profissionais do marketing político acabaram (acabamos, pois me incluo também nessa sub-raça de alguma forma) sendo negligentes e verdadeiramente amadores em transmitir uma percepção correta do que fazem (ou fazemos).

Resultado: uma caricaturização grosseira, muitas vezes protagonizada pelos próprios marqueteiros, sobre a natureza dessa profissão. Some-se a isso o pandemônio da Lava Jato e a conversão de ícones da atividade ao papel de delatores –e não poderia haver diagnóstico pior.

Por isso, como diria a president-A Dilma, vamos saudar a mandioca e também o lançamento oficial do Camp, o Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político, realizado na última semana em Brasília. Aí você me pergunta: o que uma extrovenga como essa tem a ver com a minha vida? Bom…este é um portal sobre o poder. E onde tem um marqueteiro tem uma perspectiva ou uma realidade de poder. Então, entender como essa categoria se posicionou depois dos terremotos institucionais que sacudiram o país é um referencial curioso para compreender um pouco melhor a confusão geral.

Para começar, o Camp não é composto só por “marqueteiros” –e esse já é um dado interessante. Reúne toda a mão de obra que orbita o planeta das campanhas: pesquisadores de diversas áreas, publicitários, jornalistas, estrategistas e por aí vai. Qual a finalidade do novo ente? De novo, aí é que está a fumaça de que as crises deixam pelo menos a esperança de alguma tentativa de renovação como legado. O Camp quer interferir no debate institucional de como se fazem as campanhas no Brasil.

No passado –ou seja, antes da Lava Jato– marqueteiro bom era o que aparecia muito na mídia e tratava de seus interesses a 4 paredes com seus clientes, naquela nebulosidade que os criminalistas chamam de dinheiro não contabilizado, os políticos chamam pelo eufemismo de caixa 2s e os promotores rotulam como propina oriunda de organizações criminosas. Deu no que deu: quando a política brasileira sofreu o seu 11 de setembro, o marketing político desabou junto com as torres gêmeas e foi generalizadamente criminalizado.

Ao invés de responder a esse desastre com marquetagem, os marqueteiros estão procurando o caminho da institucionalização para se adaptar aos novos tempos. Querem participar à luz do dia dos debates de leis que digam respeito aos meandros das eleições, junto a todas as instâncias, mídia, Congresso, Justiça Eleitoral, Ministério Público, partidos. Querem criar algum tipo de certificação de qualidade para a prática da atividade: quem for flagrado em falcatrua será banido pelos próprios colegas.

Perdoem-me os idealistas, mas a democracia entre muitas outras coisas é também um negócio. Sobretudo quando se trata do marketing político. E negócios podem e devem ser feitos em obediência à lei. Portanto, marketing político mais profissional e transparente significa política funcionando dentro de marcos civilizatórios mais avançados. E isso é bom. Bom para a democracia, para a política, para os marqueteiros e para o eleitor.

O presidente da nova entidade, Bruno Hoffmann, define os profissionais do ramo como “operários da democracia”. Sim, porque o oxigênio do regime democrático é a liberdade de expressão e o livre debate de ideias. E os marqueteiros são os operários nessa linha de montagem, criando através de suas peças e argumentos a linguagem em que uma parte importante dos debates da cidadania eh travada.

Então, nada mais legítimo que os marqueteiros ponham a cara não para se autopromover, mas para promover discussões e produzir conteúdos sobre uma atividade que precisa ser encarada sem mistificações e que não pode mais ficar confinada à neblina da suspeição dos bastidores, como se fosse um mistério, um segredo a que apenas os poderosos podem compreender. Quanto mais o marketing político for entendido como uma atividade normal de uma democracia saudável, mais maduro será esse sistema. Essa é a grande notícia da criação do Camp.

Na vida, aprende-se pelo amor ou pela dor. Foi preciso que o mundo político desabasse para que algumas das mais criativas cabeças do mundo das campanhas entendessem que a transparência não é incompatível com o necessário sigilo no atendimento profissional. Que uma tomada de posição pública contra determinadas práticas é agora um pressuposto para o exercício da atividade. Que influenciar o modo como são aplicados os recursos públicos dos fundos partidários e dos horários eleitorais é algo que deve ser feito, sim, por todos, às claras, pelos marqueteiros também.

Vamos saudar o Camp!

E viva a democracia, esse sistema contraditório, confuso, bipolar, mas regido pela dinâmica virtuosa dos freios e contrapesos, em que os excessos de um momento conduzem pela própria dinâmica do sistema a uma auto correção permanente e estabilizadora. Por isso, como já disse Churchill, a democracia é a pior forma de governo imaginável, excetuando-se todas as demais.

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